Por Flávio Alves
Em Jardim Paulista, a fé ganha corpo, voz e emoção a cada cena. Na Praça Moisés Soares, conhecida como Praça da Encenação da Paixão de Cristo, a montagem que retrata os últimos momentos de Jesus Cristo volta a reunir artistas e público em uma experiência que ultrapassa o teatro e se conecta diretamente com sentimentos de espiritualidade e pertencimento.
Nos bastidores e no palco, o que se vê é mais do que atuação. É vínculo. É entrega. Para muitos dos envolvidos, sair do projeto não é uma opção real. O diretor de cena, Ragner Lira, que integra a montagem desde 2016, descreve essa relação com naturalidade e afeto.
“Faço parte do projeto desde 2016 e, mesmo dizendo que pode ser o último ano, sempre volto, porque é algo que nos envolve e une. O maior desafio é coordenar um grupo grande, com cerca de 60 a 70 pessoas, entre atores e não atores, nivelando diferentes experiências. É um processo exigente, mas muito gratificante acompanhar a evolução de cada um”, relata.
Essa conexão também se manifesta na preparação dos atores, que vai além da técnica. A construção dos personagens envolve um processo profundo. No papel de Maria, mãe de Jesus, Paula Mendes destaca o recolhimento e a fé como parte essencial dessa jornada.
“Foi uma busca intensa na preparação. Lá em casa, dobrar os joelhos mesmo e pedir a Deus que, de certa forma, a gente consiga tocar o coração das pessoas.”
Interpretar Jesus Cristo, por sua vez, carrega um peso simbólico e pessoal. Para Iarisson Nascimento, o papel representa a realização de um desejo antigo, cultivado desde a infância.
“Me emocionei bastante porque tem uma história dentro de mim desde criança. Eu sempre quis e sentia que precisava fazer esse personagem. Surgiu a oportunidade e eu consegui chegar nesse momento e construir o que construí para poder entregar o que as pessoas precisam nesta peça.”
Embora mantenha a essência tradicional da história, o espetáculo também traz elementos mais atuais na forma de apresentação. Inspirada em técnicas do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, a montagem aposta em momentos em que os atores interagem diretamente com o público, quebrando a chamada “quarta parede”. Esse recurso aproxima ainda mais a encenação das pessoas, conectando a narrativa bíblica com temas do presente e incentivando uma reflexão que vai além do aspecto religioso.
A realização conta com o apoio da Prefeitura do Paulista, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, que garante a estrutura necessária para a encenação, incluindo palco, iluminação, sonorização e organização do espaço, além de acessibilidade para idosos, crianças e pessoas com mobilidade reduzida.
Após a apresentação realizada na sexta-feira (3), o espetáculo retorna neste sábado (4), às 20h, reafirmando uma tradição que atravessa anos e segue mobilizando a comunidade local.
Entre luzes, silêncio e aplausos, a Paixão de Cristo do Paulista reafirma seu papel como um dos momentos mais significativos do calendário cultural e religioso da cidade. Mais do que assistir, o público é convidado a sentir, refletir e se reconhecer em uma história que continua atravessando gerações.
Fotos: Juan Marvin/SEI e Flávio Alves/SEI

















