Por Wagner Santos
A comunidade de Nossa Senhora da Conceição recebeu, nesta sexta-feira (28), a abertura oficial da III Expo Afro - Feira de Empreendedorismo Negro, dentro do I Festival Novembro Negro de Paulista. O primeiro dia reuniu apresentações culturais, gastronomia de matriz africana, exposição fotográfica e o início das atividades dos 100 empreendedores negros e pardos selecionados para participar da feira.
Realizada pela Associação Amigos de Nossa Senhora da Conceição, com aprovação da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB/Paulista), a Expo Afro segue até domingo (30), reunindo iniciativas em moda autoral, gastronomia ancestral, estética, arte, cosméticos naturais e produtos ligados à cultura afro-brasileira.
Criador de conteúdo do canal Pernambuco no Ar e morador do município, Robson de Oxum destacou o impacto social do evento. “É muito significativo ver coco, afoxé e expressões de matriz africana ocupando uma praça da comunidade. Isso fortalece nossa cultura e oferece novas referências para a juventude”, afirmou. Ele lembrou que muitas dessas manifestações “ganham visibilidade apenas no Carnaval e depois são esquecidas”, ressaltando que iniciativas como o Festival representam resgate, pertencimento e fortalecimento das tradições negras.
A diretora da Expo Afro e produtora cultural do Festival, Nathalia de Ògún, reforçou que o evento nasce para enfrentar preconceitos históricos e promover o reconhecimento das raízes negras no município. Segundo ela, ainda existe na sociedade uma visão distorcida e carregada de estigmas sobre as tradições afro-brasileiras, especialmente as religiosas, e é justamente esse imaginário que o Festival busca desconstruir. “Há uma percepção negativa construída culturalmente sobre o povo de terreiro. Muitas pessoas que não fazem parte das comunidades tradicionais foram ensinadas a olhar nossas práticas com desconfiança ou medo”, afirmou.
Para Nathalia, colocar essas manifestações no centro da praça é um ato político e pedagógico. “Quando trazemos a comida de axé, a música, a fotografia e a ancestralidade para um espaço aberto, mostramos que nossa cultura é afeto, história e conhecimento, e não algo associado ao mal, como foi propagado por décadas. É assim que se enfrenta o racismo religioso na prática: com visibilidade, diálogo e acesso”, ressaltou.
Ela reforça que o Festival constrói pontes entre diferentes identidades negras da cidade, apresentando ao público a diversidade que vai do afoxé ao coco, do samba ao hip hop, e das tradições religiosas às expressões urbanas contemporâneas. “A cultura negra é plural e precisa ser vivida todos os dias. Quando a comunidade tem acesso a isso, a gente rompe com o racismo estrutural e abre caminho para novas gerações se reconhecerem”, completou.
A Expo Afro segue neste sábado (29) e domingo (30), sempre a partir das 15h, na Praça Sebastião Gomes de Melo, ao lado do terminal de ônibus da linha Pau Amarelo, em Nossa Senhora da Conceição, com apresentações culturais, oficinas, gastronomia e a feira de empreendedores negros que movimenta a economia criativa do município.
Fotos: Flávio Alves / SEI