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Por Leila Cunha
Antes da construção do Cine Municipal, Paulista contava apenas com o chamado “cine goteira”, uma estrutura de exibição ao ar livre que não funcionava em dias de chuva. Anos depois, a cidade ganhou um espaço dedicado ao cinema e ao teatro, que recebeu o nome do educador Paulo Freire. Agora, após quase duas décadas de interdição, o equipamento está sendo requalificado pela Prefeitura para resgatar uma tradição de lazer e cultura que atravessa gerações.
São muitas as histórias sobre como era frequentar um cinema no Paulista. A poeta e escritora paulistense Bernadete Serpa, 89 anos, reconhecida como uma das primeiras atrizes a subir em um palco na cidade, se recorda de ir ainda criança, nos ombros do pai, assistir a um filme no “cine goteira”.
Era o início dos anos 40, quando a família Lundgren costumava reunir a população em uma de suas propriedades para atividades de lazer aos domingos. O “goteira” era uma tela grande instalada ao ar livre, em frente à antiga Rua da Matinha, onde hoje está a Praça João XXIII. “O povo inventou o apelido porque, se chovesse, não tinha filme”, lembra.
Bernadete também presenciou a inauguração do Cine Municipal, primeiro nome do atual Cineteatro Paulo Freire. O equipamento foi instalado em um imóvel que pertenceu à família Lundgren, localizado na principal via do Centro do Paulista, após ser adquirido pela Prefeitura. A solenidade, em 20 de maio de 1944, contou com a presença do interventor de Pernambuco, Agamenon Magalhães. “Eu tinha 6 anos e lembro que ele brincou com os cachinhos do meu cabelo”, recorda.
Nos anos 50 foi a vez de Bernadete se apresentar como atriz no cine municipal, que acabava de evoluir para cineteatro. Na flor de seus 18 anos, ela encenou com o grupo Austro Costa a peça “Onde estás, felicidade?”, baseada em texto famoso, do dramaturgo Luiz Iglésias, que depois virou filme.
A cena teatral paulistense era bem movimentada, lembra ela, e quase nunca faltavam espetáculos em cartaz. A gestão municipal firmava parcerias com companhias de outros estados, revelando atores de destaque na cidade e garantindo plateias fiéis. E as escolas também contavam com local ideal para seus eventos.
Mudança de nome
Esta fase áurea durou até os anos 70, sobretudo na parte do cinema, quando veio a onda dos megassucessos de dentro e de fora do país. Multidões lotaram os 400 lugares da sala de exibição para assistir a filmes de ação, faroeste e artes marciais, além de produções nacionais, como “A Dama do Lotação”, e clássicos do terror, entre eles “O Exorcista”, que, segundo frequentadores da época, provocou correria para fora do cinema e até desmaios entre os mais sensíveis.
“Esse cineteatro foi muito importante para a história do Paulista. Houve fases em que recebia público de quinta a domingo”, revela José Ricardo Souza, professor de História da rede pública estadual, um dos fundadores do Instituto Histórico, Geográfico, Arqueológico, Antropológico do Paulista (IHGAAP).
“Lembro que nos anos 90, os alunos do Colégio Firmino da Veiga, nas sextas-feiras à noite, saíam da sala de aula direto pro cinema assistir à sessão das 9 e meia”, conta ele, que também estudou no colégio, mas preferia ir ao cinema aos sábados, além de ter prestigiado peças e shows de artistas locais que atraíram muita gente ao teatro.
Na mesma década, o cineteatro recebeu o nome do educador e pedagogo pernambucano Paulo Freire, por sugestão do atual presidente do IHGAAP, Ricardo Andrade, que, na época, era diretor cultural da Prefeitura ao lado do cantor Claudionor Germano, então secretário de Turismo e Cultura do município. A homenagem marcou a reinauguração do cineteatro quando fez 53 anos, em 20 de maio de 1997, após passar por reforma.
Arte e escolas
O cinema esteve por um período fechado, funcionando apenas a parte teatral, durante os anos 80. O ator Vinícius Coutinho veio do Recife nessa época, ainda adolescente, e aqui iniciou carreira, tendo o palco do teatro municipal como primeiro cenário de referência. Hoje diretor, dramaturgo e produtor cultural, Vinícius Coutinho representa o Paulista na cena artística pernambucana e destaca a importância do município para sua trajetória profissional.
“Trabalhei com o projeto ‘Escola vai ao Teatro’, que levava alunos das redes pública e particular para assistirem a meus espetáculos no cineteatro, de terça a sexta”, conta o artista, que também participou de vários festivais teatrais no local, além de cursos e oficinas, tendo assistido a peças com a presença de artistas de renome nacional como Ariano Suassuna. “Tudo isso foi muito importante para minha formação”, admite.
“Era um teatro simples, sem glamour, com cadeiras bem desconfortáveis e sem os recursos de acessibilidade exigidos atualmente. Mas era o único do Paulista e precisava ter sido melhor cuidado ao longo do tempo. Uma cidade que tem um teatro é rica em cultura em todas as suas manifestações”, destaca o ator, que hoje integra a equipe que acompanha regularmente as obras de reestruturação do Paulo Freire, junto com o professor José Ricardo Souza e representantes da gestão municipal.
Requalificação
Com o passar dos anos, a falta de manutenção por parte do poder público, ao longo de sucessivas gestões, contribuiu para a deterioração do Cineteatro Paulo Freire, que precisou ser interditado em 2008. Segundo o professor José Ricardo, que também integra a Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista (ALAP), algumas salas laterais à edificação, que haviam abrigado as primeiras reuniões da entidade, foram posteriormente destinadas a outras instituições, entre elas o Tribunal Regional Eleitoral (TRE).
Em 2021, a gestão municipal iniciou os estudos para a requalificação do cineteatro. “Como arquiteta efetiva da Prefeitura na época, tive a felicidade de integrar a equipe responsável pelas primeiras etapas da proposta de requalificação”, relembra Jaina Poesi, atual secretária de Infraestrutura do município. Devido ao avançado estado de precariedade em que se encontrava, foi definido um projeto praticamente do zero e o novo equipamento vem sendo construído no terreno original, no centro do Paulista.
Hoje com quase 40% das obras concluídas, a edificação ocupa área construída de 965,47 m², dividida em dois pavimentos, com capacidade para 250 lugares, incluindo foyer (espaço para recepção e encontro das pessoas) com snack bar (balcão para venda de lanches); mezanino; oito banheiros (seis no térreo e dois no mezanino); salas para controle de iluminação, projeção e som; palco multifuncional e área de apoio para instrumentos e cenários, além das bilheteiras e camarins. Todo o equipamento contará com climatização, instalações hidrossanitárias adequadas e sistema de prevenção e combate a incêndios.
A acessibilidade é o grande destaque do projeto. “Teremos uma plataforma elevatória de acesso ao palco, para facilitar a participação de artistas e demais usuários com deficiência ou mobilidade reduzida”, detalhou a secretária, acrescentando que o projeto inclui rampas, espaços reservados na plateia, barras de apoio, pisos táteis direcionais e de alerta, mapa tátil e elementos de sinalização em Braille.
A requalificação também conta com a participação de artistas, vereadores e representantes da sociedade civil que integram o Conselho Municipal de Política Cultural. Os membros formaram uma comissão de fiscalização, que também conta com a participação de representantes da gestão municipal, responsável por realizar visitas técnicas mensais ao canteiro de obras, acompanhando a execução dos serviços e apresentando sugestões sobre acabamentos, iluminação cênica, acústica e outros aspectos do projeto.
“É muito importante acompanhar a evolução mês a mês. Tenho certeza de que será um dos equipamentos culturais mais relevantes da cidade e um novo patrimônio para fortalecer a cultura paulistense e o teatro pernambucano. Que a gente continue lutando juntos para nunca mais deixar o teatro chegar ao ponto em que esteve”, celebrou o ator Vinícius Coutinho, que faz parte da comissão.
Fotos atuais: João Gonçalves/SEI
Fotos de drone: Flávio Alves/SEI








